sábado, 30 de outubro de 2010

Por uma sociedade mais gentil...

Estou cuidando da casa de uma família de missionários, eles estão em uma aldeia no interior do Amazonas, por alguns meses. Estou ótima aqui, é como se eu tivesse minha própria casa. Não preciso correr pra tomar banho, porque não tem fila, faço minha própria comidinha, posso deixar a louça pra lavar no outro dia, tenho acesso à internet 24h. Mas aí tem as contas, né? Telefone, luz, internet, o cara que corta a grama, enfim...

Por mim tudo bem. Só não contava com as ligações diárias do Banco Santander querendo vender algum produto para meus colegas. Sério! Aquelas mulheres ligam TO-DOS OS DI-AS!!! Ontem fez 1 mês que recebo essas ligações. Querem falar com os donos da casa, pergunto se é algo sério, mas respondem que é sobre um produto que seria de grande interesse deles. Quando falo que estão viajando, pedem um contato, como eles estão na aldeia, não tem contato lá, de 15 em 15 dias, em média, me ligam pra saber se tá tudo bem. O pessoal do Santander não é capaz de fazer essa anotação, mas ligam todos os dias repetindo a mesma ladainha e meus colegas sequer são titulares de alguma conta nesse Banco.

Ontem foi um dia difícil, eu tava em crise e, segundo a Lei de Murphy, nessas horas que esses chatos testam ainda mais sua paciência. Eu tentava descansar um pouco depois do almoço, pra ver se encarava a segunda metade do dia com uma postura mais positiva, quando o toque do telefone me dá aquele susto... Eu atendo... “Aqui é do Banco Santander, com quem eu falo, por gentileza?” Aff! É agora que dou um trato nessa gente... Esperei ela repetir todo aquela litania e contei pra ela a aflição que essas ligações do banco estavam me fazendo passar e perguntei se não havia um jeito de eles pararem com as ligações diárias. O problema é que meu tom de voz não foi amistoso e infelizmente o outro lado da linha não foi compreensivo comigo. Acabei respondendo: “Se vocês não podem fazer nada, então o jeito é continuar treinando a minha paciência todos os dias, até março, né?” Ela ignorou minha proposta, me cumprimentou num tom irado: “o Banco Santander agradece sua atenção e deseja um bom fim de tarde”.

Menos de 24h depois, o telefone toca e eu um pouco recuperada do meu dia anterior difícil, tentei outra estratégia, usando minha GENTILEZA+BOM HUMOR com a atendente designada a me ligar hoje. Ela riu da minha situação de zeladora da casa dos missionários loucos que estão na tribo e disse que iria colocar um anotação ao lado, prometendo me libertar da maldição do telefonema diário do Banco Santander. Eu agradeci muito e fiquei pensando em como desperdicei tempo e emoções na ligação anterior. Acho que também me tornei ainda mais convicta que a gentileza continua fazendo e sempre fará toda a diferença. Pratiquemos, portanto!

domingo, 4 de julho de 2010

Maçã não é banquete!


Quando eu era criança e ouvia a história, de Adão, Eva, a Serpente e a “Maçã”, ficava aborrecida com a incompetência dos dois primeiros para dizer não ao engano e simplesmente obedecer àquele Deus tão maravilhoso. Queria eu ter a oportunidade de, no lugar deles, acertar, desmascarar a serpente e passar naquele teste de adoração a Deus. Obediência é adoração e ter a Deus como suficiente é adoração.
Quando eu fui crescendo fui descobrindo em mim a tendência natural para pecar, minha facilidade humana de tentar burlar as leis de amor de Deus para garantir a sobrevivência do meu EU, enquanto dominado pela carne, pelas minhas paixões, vaidades, orgulho, auto-suficiência. Comecei a ter a certeza que eu ia dar o mesmo vexame no lugar da Eva, pois aquele teste de Satanás era sua tentativa de provar a nós humanos que, embora sejamos criados, observados e desejados pelo Deus de todo o amor, nos sentimos inseguros quando nossa auto-suficiência desafia a suficiência de Deus em nossas vidas.
O desejo de passar pelo teste no lugar de Adão e Eva ainda me passa pela cabeça e começo agora a entender porque tanta insistência minha em questionar o que eu faria no lugar deles. Vejo um princípio nessa história que ainda vigora hoje nas batalhas nas mentes humanas e está em negrito nos meus pensamentos neste momento... Minha humanidade insiste na auto-suficiência, impaciente com o tempo de Deus para cuidar da minha satisfação em cada detalhe. Detalhes estes que dizem respeito a como lidar com diversas questões minhas desde “como agir naquele conflito de relacionamento” até “o que eu preciso fazer para alcançar os sonhos que ainda vigoram no meu peito”.
Hoje mais uma vez o Espírito insiste em me dizer, docemente e como uma suavidade que exige que eu zere o volume da voz do meu EU para ouvi-lo. Ele diz que meus deslizes são apenas aqueles pecados que Jesus já pagou na cruz e que eles não mais importam quando eu os reconheço, me arrependo e decido agir de forma diferente e mudar meus hábitos. Mas me alerta que meus deslizes me distanciam dos alvos dEle pra mim, me fazem surda para ouvir Sua voz e trazem uma triste distância no nosso relacionamento.
A oportunidade de ser Adão e Eva são as mesmas pra mim, a cada situação que vivo onde tenho a possibilidade de decidir entre afirmar que meu Deus é suficiente e aquela convicção própria de que sei o que estou fazendo e o que quero é garantir a sobrevivência do meu EU.
Ninguém garante sua própria sobrevivência, pois nada é suficiente a não ser o relacionamento com Aquele que nada deixa faltar, pois Ele sabe exatamente o que preciso. Tenho tudo que procuro e preciso no relacionamento com Aquele que me traz descanso, alívio, tranqüilidade e refrigério quando eu preciso; que me guia no caminho preparado para mim, onde tenho segurança total pra chegar até o fim, por causa do Seu amor. Só Ele pode tocar minha alma quando ela está ferida, até mesmo sentindo angústias de morte, Ele pode levar todo o medo pra longe, pois Seu abraço me envolvendo é suficiente, Ele é o único especialista em consolação. Em situações de ameaças à minha integridade e a minha reputação, tenho tudo que preciso: promessa de provisão (banquetes são os mais prováveis), companhia e honra e Suas promessas são tudo o que eu preciso. É Ele que me cura, me prepara, me escolhe e me coloca na posição que devo ocupar e todas essas certezas são mais do que suficientes pois Seu modo de agir sempre é surpreendente e faz transbordar a alma daquele que permanece esperando pelo agir de Deus, dentro do Seu tempo. Para quem espera nEle para viver essa experiência, há ainda a certeza de que a bondade e a misericórdia são as primeiras a dizer “Bom dia, filho amado!” e a ardente expectativa de caminhar com Ele pelo jardim, no finzinho da tarde, por toda a eternidade.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O Madeira e o Aerópago


Lar de botos, peixes diversos (incluindo alguns agressivos e até mortais), jacarés, cobras e tantos outros seres, o Rio Madeira é considerado um dos mais perigosos da Bacia Amazônica, também por suas corredeiras, ilhotas, banzeiros e troncos soltos flutuando. Outro dia uma balsa com cerca de 20 carretas carregadas de alimentos, afundou em parte e toda aquela riqueza precisou ser distribuída entre as comunidades da beira do Rio, garantindo frango e laranja para muitas famílias e uma renda extra pra quem conseguiu carregar o bastante para vender.

Neste mesmo Rio tenho navegado estes dias em um barquinho movido a um motor pouco veloz. A gente usa o colete salva vidas que até incomoda, mas no fundo nunca acho que o pior acontecerá, afinal de contas estou numa missão tão digna que os céus impediriam qualquer mau agouro.

Outro dia, além dessa viagem de barco, por cerca de 40 minutos com o joelho quase batendo no queixo (devido ao tamanho do barco e ao meu tamanho), andamos mais um pouco pra chegar à casa de uma das famílias beneficiadas com o Projeto Maria’s. Fui surpreendida com o fato de que haveria um lago pra atravessar até o nosso destino. Dentre as 3 pessoas da equipe, apenas eu sei nadar, ou melhor, sei me salvar. Depois de um breve discussão, nossos sextos sentidos nos venceram e achamos prudente que somente eu atravessasse o lago, já que havíamos esquecido os coletes. Ao encarar a canoa, alguns detalhes a mais... era furada e só havia um remo. A menina que remou até lá deu o seu melhor mas não pode evitar que os cerca de cinco minutos de travessia fossem bastante digamos, oscilante. Eu pude me entreter tirando a água do barco e o tempo, nem vi passar.

Missão cumprida, travessia de volta, caminhamos novamente até a beira do Rio, embarcamos novamente e na próxima parada nos divertimos nervosamente com o próximo desafio... uma ladeira bem inclinada e lamacenta. Pés enfiados em uma lama lodosa, densa e escorregadia, sustos e escorregões, unhas cheias de lama na tentativa de se agarrar a algo procurando evitar descer vertiginosamente e lavar toda a lama no Rio (sim! A cena passou pela minha cabeça) e com certeza, muitas risadas e gritinhos. Chegamos à casa da família que desejávamos encontrar, conversamos e voltamos, incluindo a descida naquela memorável ladeira.

No fim do tempo de visitas, chegamos cansadas, enlamedas e queimadas de sol. Isso foi a manhã e à noite após uma reunião com os moradores da comunidade, tive o prazer de viajar pela estrada de chão na carroceria de uma caminhonete admirando o luar emoldurado por nuvens branquinhas e o efeito brilhante que fazia na floresta à nossa volta. Que dia! Adoro colocar minha coragem à prova!

Ao meditar sobre a vida do apóstolo Paulo, lendo o capítulo de Atos que narra seu no Aerópago, fiquei pensando em como estaria sua mente e coração ao tomar a decisão de começar a falar naquele lugar. Considerado um tagarela por alguns dos filósofos, me encantei com a realidade dos fatos se encaixaram perfeitamente na vida do Paulo. Entre tantos elementos que ele tinha em sua bagagem, havia dois que quero destacar... Uma coragem há muitos acontecimentos atrás lapidada e o preparo para argumentar.

Fiquei pensando: "O Paulo realmente era corajoso por amor ao Cristo do evangelho ou por sua motivação por conquistas?" Ele com certeza amava superações, vide sua história de vida. O versículo 27 do capítulo 17 tirou todas as minhas dúvidas. O cara sabia que seu Deus era próximo, apesar de nós seres humanos, enquanto vivemos distantes dEle, tateemos por Sua presença que nem uns tontos, sem encontrá-lo, caso não o busquemos quebrantadamente.

Mais uma vez tive a certeza que minha admirável coragem é medíocre se não tenho certeza absoluta que o motivo disso tudo é meu Deus, que está mais perto do que eu já posso sentir. Quero muito mais!

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Discípulos...

"Será que ainda quero continuar trabalhando com crianças e adolescentes?"

Algumas situações que tenho vivido nos últimos dias tem me levado a esse auto-questionamento. Parece que me meti numa furada... Um casal de missionários que são amigos meus, me pediu para cuidar de suas 5 “filhas do coração” (2 crianças e 3 adolescentes), durante 15 dias, mas este número precisou saltar para 22, no decorrer do tempo.


Ainda não acredito que estou sobrevivendo a este tempo. Quando assumi o compromisso, sabia que era grande, mas imaginei que a criação rígida dos pais, me ajudaria a manter as meninas na linha. Tem acontecido de tudo pra me cansar, irritar, desanimar, desacreditar. Uma delas em especial, vinha me ajudando muito, sempre disposta a servir, querendo me agradar e apoiar, parecendo entender como está sendo difícil pra mim. Mas aí ela cometeu um erro gravíssimo, daqueles que você sente o castelo da confiança desmoronar. Exatamente ela abusou da confiança que tinha nela, para me trair, infringindo regras.


Cheguei a ficar sem ar quando descobri sua traição e não soube como agir. Fui pra Deus, lutando contra minha própria desistência, buscando nEle calma, encorajamento e direção. Ele me fez lembrar de como foi difícil pra Jesus ter discípulos e ser traído por eles. Guardando as devidas proporções, a situação de Jesus me ajudou muito. Tenho meditado no livro de Atos e lembrar de quem Pedro era e em quem ele se tornou, foi me trazendo esperança.


Eu desisti das meninas e do meu chamado por alguns instantes, ao me sentir traída, ao pensar que minhas discipulinhas não estão reconhecendo o quanto tenho me esforçado neste tempo. Nesse instante Jesus me leva a olhar para o seu exemplo, pois Ele nunca desiste de nós e Seu amor por nós não muda, embora caminhemos errantes. Era a fagulha que eu precisava para continuar caminhando, indesistível.


Agora a noite, elas fizeram um bolo e disseram que era em minha homenagem. Eu quis que elas desistissem, dizendo que não tinha ovos e que não poderiam usar a fôrma. Elas fizeram sem os ovos e usaram uma panela para assar o bolo. Prepararam um calda de açúcar com leite e embora eu não goste de bolo de cenoura, não pude resistir à doçura que quiseram me oferecer, na tentativa de mostrar que reconhecem que sou importante pra elas. Além disso, assim como eu, são apenas crianças.


É maravilhoso poder entender um pouco mais sobre como e quanto Deus nos ama. Eu não resisti a elas, Ele não resiste a nós.



segunda-feira, 8 de março de 2010

Viver em JOCUM Porto Velho é...


Trocar o seu perfume favorito pelo cheirinho de repelente;

Andar pra todo o lado com o kit de sobrevivência – lanterna, repelente e sombrinha (para sol ou chuva);

Morar em casas que não tem vidros, mas telas;

Aprender os nomes dos mosquitos: carapanã, caba (terrorista), maruim, micuim, mutuca, etc.;

Ter vontade de cantar quando bate um ventinho;

Dormir ao som de muitos grilos e outros insetos que compõe uma orquestra nativa noturna;

Descobrir que esse pedaço “selva amazônica” é um dos lugares mais perfumados por onde a gente pode andar;

Conviver com um número enorme de indígenas e descobrir que há umas 225 etnias no nosso país;

Ver com os próprios olhos, sentir na pele e no olfato que a Amazônia pode ser muito mais bonita, interessante, barulhenta e perfumada do que a gente aprende na escola;

Caçar um sinal de celular e wireless ente as árvores;

Descobrir que suas roupas podem levar muito tempo pra secar, apesar de tanto calor;

Beber mais água do que o costume, pois isso ajuda a descobrir se tenho sintoma de malária;

Planejar muito bem e anotar tudo o que você precisa na cidade, porque se esquecer, a mão de obra pra ir até lá e voltar é grande e dispendiosa;

Ter a certeza de que Deus sabe o que faz e deve ter Seus motivos pra me trazer pra esse meio do mato.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Coisas NOVAS em Porto VELHO...

Quanto mais eu fico perto de chegar ao meu novo destino, mais medo eu tenho e mais eu fico irritada comigo mesma por deixar esse medo crescer... Quanto mais eu acho que cresci e a tão almejada maturidade enfim está dando sinais, mais eu experimento que isso é ilusório, ou inatingível, ou relativo, ou irrelevante e assim me justifico...

Estou há umas três semanas tentando arrumar a mudança, mas ela precisa caber em até 23 kilos!!! Como? Já “joguei algumas coisas velhas fora-a”, inspirada na canção que você pode ouvir clicando aqui. Talvez eu vá chegar bem próximo do mínimo possível, para sobreviver aos primeiros instantes lá. Tenho absoluta certeza que quero desperdiçar o mínimo possível do meu patrocínio*, com R$ 10,00 a mais por kilo excedente. Segundo a Cia aérea, se eu estivesse almejando um lugar onde houve um desastre, eu teria direito à concessão de gratuidade ao peso excedente. Já que é assim, escolho uma bagagem menor do que as áreas de desastres. Aff! Desculpe o sarcasmo...

Só sei que eu daria tudo para não levar imaturidade e medo nas bagagens, mas a esta altura, estou jogando fora até isso – a necessidade absurda de controlar cada pequeno erro ou temor. Imaturidade nem sempre é sinônimo de nunca errar e medo nem sempre é sinônimo de falta de coragem.

O que também só sei, é que as reações dos meus contatos (“vai pra tão longe?”, “vai fazer o que lá?”, “poxa... se você não fosse pra lá...”), elas me fazem ir até o recipiente de medo e ir tentando manter seu nível estável, pelo menos. “E se eu cometer os mesmo erros?” Acho que nessa perguntinha que me vêm à mente tantas vezes, no mesmo dia, encontro a prova de que estou com medo e questiono porque não estou suficientemente segura... “Será que ainda não cresci, meu Deus?”

Se minha ida pra longe é um auto-convite para provar a mim e ao mundo que eu cresci ou quero crescer, o que eu realmente deveria fazer depois de postar isso, é mandar arquivar estes questionamentos e ir dar mais uma olhada nas minhas malas. Vou decidir acreditar que estou levando o que eu preciso, que eu sei escolher o que eu preciso e que apesar de ter que carregá-las sozinha, Algo me diz que serei corajosa e madura o suficiente para levar até o fim o meu anseio inicial... viver coisas NOVAS em Porto VELHO!

*PARA SABER MAIS SOBRE "PATROCÍNIO", CLIQUE AQUI E LEIA O ITEM 16